A DEUS, DEUSA

I

Lua cheia de disfarces,
abro agora minh'alma,
nela abrigo o espírito.

Dramático, acolhedor,
entrego meu coração
sentimental e feminino

à descoberta do enigma,
à serpente que se devora,
à deusa que se me revelou.

II

Preta, entre
o conto e a
realidade, há
um ponto

negro de nascença:
nossa ligação
(com o) além
do visível.

Somente a mim,
que já o sei,
posso recordar
do mistério.

Somente a você,
que não o teme,
posso recordar
do silêncio.

III

Desde há muito existe uma conjunção
de investigação sutil e fértil vivência
do ser, por meios místicos, mundanos,
manifestos e ocultos, aberturas de
canais, chakras e portais e conhecimento
da escuridão, da morte e da cura.

Um encontro sagrado de sólida associação,
que exige longo tempo de preparo na solidão:
varredura interna de vultos e trevas,
trabalhos de morte e renascimento
para alcançar um plano espiritual
próprio, aliado ao caminho que será
mutuamente trilhado, em par.

IV

Nessa morada se adentra para aprender
sobre recepção, colaboração e doação. Para
encontrar, no poder imenso da comunicação,
o grande potencial de equilíbrio e renovação:
silenciar e ouvir, carinhosamente, a quem
transmite uma mensagem; compreender
da necessidade e apoiar sua passagem, com
fortes sentimentos de satisfação e desapego.

Nesse lar se adentra para simplesmente
viver a rotina de labor, comida, paz,
amor e espiritualidade no dia-a-dia,
prática devocional e disciplina madura
onde os planos material e mental servem
para que excessos tornem-se abundância.

Nesse chão se adentra para entregar-se
à sexualidade de sensações profundas e intensas,
ao íntimo, tântrico caminho último de poder, cura e
amadurecimento, ativação de Kundalini e libertação
de inseguranças, reservas, traumas e limitações.

Nesse solo se adentra para conhecer
as raízes de pedras, plantas e bichos,
seus versos e melodias feitas de devaneio,
inspiração e alegria; o alívio lúdico das artes
e a leve magia da intuição quando encontram
suas naturais linguagens de expressão,
ativando a canalização cósmica e a
conexão amorosa com todos os seres.

Nessa terra se adentra para aceitar
a perfeição e as sombras da totalidade;
limpar as profundezas da alma
e as ligações kármicas retrógradas;
renunciar ao ego, abandoná-lo,
perdê-lo e matá-lo. Sacrificando-se,
oferecer-se de encontro ao nada,
a casa zero de toda transformação.
Lá então, regenerar o ser essencial,
readmitir seus poderes bloqueados,
elevar a energia, respirar, brilhar e atingir
a consciência suprema de todas as coisas.

V

Vem,
harmonia dinâmica
entre mundos
Interior e Exterior!

Vem,
dança perene
entre planos
Superior e Inferior!

Vem,
reunião divina
entre Luz e Sombra,
Céu e Terra!

Vem,
comunhão vital
entre Homem e Mulher,
Masculino e Feminino!

Vem,
matrimônio sagrado
entre Shiva e Káli,
Hades e Perséfone!

Mas,
primeiramente,
sejam esses casamentos
celebrados dentro
de cada um.

Sobrevividos,
entregues,
juntos, eles
se tornarão
fachos de luz.

(Guebo)

Um comentário:

  1. És tão profundo! Tão sábio... De onde vem tanta inspiração, senhor? Me comoves profundamente. Parabéns! Siga em frente filho.

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