IÇAR

I

Içá
Fêmea da saúva
Tanajura

Ergue
Levanta
Arvora

Bandeira
Flâmula
Vela de navio

(Dicionário Luft)

"Você já comeu Içá?

Se disse "sim",
ajudou a evitar
a destruição de milhões
de folhas, arvoredos,
roseiras e muito mais.

Cada içá que você devorou
preparava-se para ser a rainha
de uma linhagem de milhares
e milhares de vorazes saúvas.

Içá é a fêmea das saúvas
que, lá pelo mês de outubro,
emerge dos grandes "olhos" dos formigueiros,
às centenas, e alça vôo para se acasalar, lá em cima.

Atrás dela vai o sabitu,
uma formiga macho pouco menor que,
após o casamento aéreo, cai extenuado
e morre logo depois.

A içá, ao contrário,
desce cheia de energia,
fecundada, arranca as quatro asinhas
e escolhe um lugarzinho de terra mais
macia para cavar seu ninho.

Afasta os torrõezinhos de terra com seu poderoso ferrão
e vai afundando. Cava uma galeria
e pouco depois, no fundo da terra,
começa a pôr ovos de onde sairá toda sua futura família.
E continua botando durante anos e anos.

E cada outubro,
acontece mais uma revoada
de içás e sabitus,
a partir desse ninho,
para inundar jardins,
campos e plantações
com mais formigueiros.

Pássaros e crianças fazem a festa no tempo da revoada.
Em vôos rasantes, os pássaros enchem o papo. Enquanto as crianças,
empunhando galhos de árvores, correm atrás e abatem as içás. E estas,
catadas no chão, vão para uma latinha que deve ser enchida até a boca.

Depois é levar pra casa,
arrancar o perigoso ferrão,
perninhas, asas, deixar
só a bundinha redonda,
cheia de ácido fórmico,
e pôr na frigideira quente para assar.
Um pouco de sal ou farinha podem dar um toque
para disfarçar o estranho gosto de formiga assada.

Se faz mal?

Pra mim nunca fez.
Mas eu vi amiguinhos com dor de barriga depois do banquete.
Foram muito gulosos.

A última vez que "cacei" içás,
quando ainda menino, foi lá num "olho de formigueiro"
atrás da igreja matriz de Santa Isabel, cidade onde nasci.

Eu mais uns priminhos levamos bacias, baldes de água
e usávamos uma "técnica" mais sofisticada para a coleta.
Jogávamos a bacia no meio do formigueiro que "fervia"
de saúvas, formigas guerreiras e içás, emergindo aos montes, dos buracos.

Enchíamos as bacias de água e pulávamos dentro.
Assim as formigas não nos alcançariam.
Daí era só esperar que as içás aparecessem para capturá-las
segurando-as pelas asas, antes que levantassem vôo.
Com essa "técnica" enchíamos latões de içás para toda a família.

Hoje eu não teria coragem de repetir essas comilanças.
Mas há muito garoto pelo interior afora vivendo essas aventuras,
mesmo à custa de algumas ferroadas.

Mas isso faz parte da guerra contra as saúvas.
E vale tudo nessa guerra. Só haverá um vencedor."

(Mauricio de Sousa)

"A içá
torrada
venceu todas
as resistências,
urbanizando-se mesmo,
quase tão completamente
como a mandioca, o feijão,
o milho e a pimenta da terra.
(...)
Nos meses de setembro e outubro, em que saem aos bandos essas formigas aladas, buscava-as com sofreguidão, nos seus quintais, a gente de São Paulo, e ainda em pleno século XIX, com grande escândalo para os estudantes forasteiros, eram apregoadas elas no centro da cidade pelas pretas de quitanda, ao lado das comidas tradicionais: biscoito de polvilho, pés-de-moleque, furrundum de cidra, cuscuz de bagre ou camarão, pinhão quente, batata assada ao forno, cará cozido..."

(Sérgio Buarque de Hollanda)

"A içá é a fêmea da formiga saúva,
responsável pela perpetuação da espécie.
Seu abdômen, destacado do corpo e torrado,
constitui iguaria muito apreciada na culinária popular.

Saúva é designação comum às formigas, especialmente as do gênero Atta, da família dos formicídeos, que conta com cerca de duzentas espécies, nativas do Novo Mundo e abundantes na região neotropical.

Elas cortam pedaços de folhas,
que carregam para os ninhos
a fim de criar os fungos que
constituem o seu alimento exclusivo.

São chamadas ainda,
entre outros nomes,
de cabeçuda,
caçapó,
caiapó,
carregadeira,
cortadeira,
formiga-cabeçuda, formiga-caiapó, formiga-carregadeira,
formiga-cortadeira, formiga-da-roça, formiga-de-mandioca,
formiga-de-nós, formiga-de-roça, formiga-saúva,
lavradeira, manhuara, maniuara, picadeira e roceira.

A içá, tanajura,
como é conhecida a rainha,
e bitu ou sabitu os machos,
revoam em dias claros
do começo da estação chuvosa;
após a rainha ser fecundada,
inicia novo sauveiro.

Traz, no aparelho bucal,
uma bolota de fungo
de seu formigueiro natal
e a regurgita no novo sauveiro,
irrigando-a depois com sua matéria fecal.

Cerca de 99% das içás não chegam a formar sauveiros maduros.

Controle natural.

Em voo,
as içás são devoradas
por pardais, andorinhas, sabiás
e outras aves.

No sauveiro novo,
são atacadas por tatus
e insetos predadores.

Diversas espécies eram consumidas
pelos índios brasileiros
fritas em salmoura e
misturadas com farofa.

Essa tradição foi passada
para os sertanejos e tropeiros,
os quais ainda nos dias atuais
não deixam a tradição ser exterminada."

(Wikipedia)

II

Intensa idade
Intensa cidade
Intencionalidade
Intensa içá

Imensidão
Içá deixa a terra respirar
Intenção
Içá expressa o desejo
Cidade
Içá queima
Intensidade
Içá pica

Tratá-la
Ser Içá
Comê-la, começá-la
Sou Içá
Sê-la, devorá-la
Todos amavam Içá
Todos não sabiam amar.

Içar
contar os versos que vêm
no centro da fogueira
quando queimam as formigas.
Enraizar toda dor e amar.

Masculino que aflige feminino,
Masculino que tortura feminino.
Feminino que domina masculino,
Feminino que abate masculino.

III

O preço dos esgotos sobe
dos centros às extremidades,
até que os velhos canais transbordam
e rãs carnívoras assaltam a cidade.

Ópera malandra sem mistérios ou resguardos
perante as misérias e farrapos dos ratos e
ratas que matam insetos sob o cruzeiro.

Debaixo dos nossos pés e
de todos os olhos da Terra saem
as içás a voar, as novas borboletas
que caçam e fazem cair, cortam e carregam
os corpos dos homens, assados na fogueira,
culinária das rainhas!

De covardia, logo bilhão de homens dançam e morrem.
A energia de outras gentes, respiramos com elas que voam
e têm as vozes roucas dos primeiros tempos escritos a terra e água.
Alonguemos com a fumaça dos vulcões e soltemos pelos próprios umbigos.

(Guebo)

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