LÁGRIMAS DE UM DEUS INTERIOR


"Me faça sofrer
Ah, me faça morrer
Ah, me faça morrer
De amar"
(Canto de Xangô)



Na verdade,
sou apenas um homem
deitado no chão,
clamando
para não morrer
sozinho,
mesmo sabendo
ser a morte solitária
minha própria sina.

Carrego-a como fardo e destino,
para livrar-me da sombra da maldade
e tornar-me luminoso guerreiro.

Já você é uma mulher
de pé, que não precisa morrer.
Apenas o sabe, lunar e vivamente;
carregas a água,
és poderosa geradora.

No meu desespero,
na minha convulsão
silenciosa, gelada e fixa,
na minha não entrega à dor mais profunda,
há muitas vidas
sinto, sofro, sonho, duro, rodo,
morro e nasço - sem evoluir.
Temo, temo, temo, 
o tempo, o tempo, o tempo;
sei, sei, sei, sei muito, sei demais;
apenas sei, não Sou; nego Ser.

Até que
num dia mágico
me reaparece 
o mito
e seu rito:
eis que
encontro
meu alívio!

À menina mais bela da Terra,
rogarei um sacrifício
- aquele que não faço -
para me libertar.
Seu sangue há de lavar
minha suja alma.

Eu a encantarei, eu a sequestrarei
quando começar a colher suas
merecidas flores de primavera.
Dar-lhe-ei de comer, em
segredo, de um veneno
que selará seu destino
de serviço e isolamento.

Não,
não,
não!
Não farei isso
de novo!

Pela graça divina,
essa encarnação
é momento de decisões,
de início e término
de uma necessária
mudança de consciência e
transição da personalidade.

De nada adiantará
intentar novo engano
ao próprio compositor
dessa Sagração!

Pois sou eu, e não ela,
quem deve aprender
a deixar-se ir,
sacrum facere!

É tão difícil aceitar
e tanto dói admitir
- como dói amar... 
como dói morrer -
que esse amor só florescerá
quando assim for...

Eu te amo muito,
Deusa mulher menina,
e tanto, e ainda
mais que outrora,
que não posso viver
ao seu lado agora
(sem te matar,
injustamente),
por mais que
queiramos morrer
desse desejo,
mais uma vez.

É tua a estação de viver ao sol, comer as mil
cores, gozar da carne da cidade e dos rapazes
e muito caminhar e dançar.

Seja esse teu ofício
até o dia que eu quebre,
por fim, o último feitiço
que por dentro me consome
(a gangrena, o câncer)
e me lance, finalmente
livre e destemido,
ao abismo infinito.

E nesse momento,
surpreso ao te ver
ao meu lado, também caindo
distante de toda realidade,
aceitarei teu límpido sacrifício,
toda a tua entregue imortalidade
àquilo que te possuirá para
sempre com todo Amor e Verdade
e te beijará com o néctar mais
perfeito que jamais terá 
nenhum sentido.

(Guebo)

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