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NATUREZAS

Mulheres das peles coloridas
Como pássaros das matas mais antigas
Minha cara sorrirá mais, companheiras
Boa noite, boa tarde e bom dia!
Que olhos tens em qualquer estado
De irmãs, mães ou artes:
Estou-lhes dizendo amizade!

Do trovão ao chorinho
Sem tamanho lhes amo, nêgas!
Clarezas das escuridões
Das contradições, chaves
Nascedouros, mansuetudes e
Caminhos do que arde
De melhor e mais urgente:
O Amor, o Sentir, o Axé.

Fantásticas, preciosas, belas
Merecem o esforço e o não-esforço
O gozo do riso e o sopro da guerra.
Sou por soul, só sou e ouço
O som delas:
É víbora que pelos olhos entra
E toca uma música velha

Vibram tão fundos salmos, seus mares
Giram os gritos, adentram os ares
Acendem-se as velas nos altares.
Deus são Deusas:
Naturezas.

(Guebo)

EM BELEZA

Meus olhos se abrem
E vejo nos teus

O belo na tua
Beleza madura.

Eu tenho
Olhos para o belo

O belo tem
Meus olhos pra você.

Meu olhar à Graça
Desperta e cheia

Te lembra de olhar
A Natura, ti mesma.

Ver em ti, tua beleza
Ela, sempre bela

Se olha e se vê
Em Beleza. Embeleza.

(Guebo)

GUERRA DE ALEGRIA

Os reis ricos e rainhas do medo

Em suas vivendas atrás das cercas
Mapeiam, gritam e às vezes brandam.
Noutras, suas febres ardem e rasgam
Os pés e as mãos dos escravos.
Tempo de retardos!

Desencontrados, vivemos triturando

Vidros, plásticos e ácidos.
De tais espetáculos
Jorram jatos de sangue e
Saltam estilhaços e afins.
Dor comum, palavra comum, boca comum.

Mas toda vida há vilas, ocas,

Escolas e teatros de rua
Dispostos a cantar na cidade,
Derreter o mármore, ocupar
Espaços e moradas vazias e
Destronar as oligarquias.

Aí estão muitos seres participando:

Cães, crianças, mulheres e homens,
Pássaros, fantasmas e plantas que
Vivem a miséria e a força na Terra.

Outras figuras, vozes, gestos, existências em coro

Estão ao redor da mesma fogueira da sobrevivência.
E quando entram no espaço-tempo do estrondo
O comum vibra, o comum tem gosto,
O comum retira o véu que cobre seu rosto,
Vem de dentro e vem de fora
O impulso e a coragem
Do oculto libertado.

Do jogo invisível surge então o mistério

Que concretiza no presente o poço
Dos desejos revolucionários.
É a possibilidade de agir a gerar o impossível:
É a poesia porteira potente ponte portante da loucura.

Fragmentos e palavras de liberdade

Insurgem dessas paixões incomuns,
Vestidas de vermelho. Ouve-se:

"Venham, plantas da Natureza!

Venham, pingos da chuva!
Venham, cachorros e urubus!
Venham, tucanos e tamanduás!
Vamos, guerreiros, andemos já!
Venham em guerra de alegria!
Estamos lhes dizendo Amizade!

Sorria, Maravilha!

A carne é mortal!
A vida é eterna!
É Primavera, Baby!
A gente já começou!

Exaltação da Beleza?

Com certeza, com certeza!
Em estado Odara
Cada parte devida ao povo!
Toda hora é para triunfarmos
Sobre nosso mundo de grades!

Se queremos transformar os palcos capitais

Vamos ouvir poesias africanas e ancestrais
Vamos ver o Ilê Ayê passar
Vamos ver a fogueira das mariposas e içás
Nos dar a luz e
Vamos sentir os cheiros que ali estão.

Vamos ler os textos esquecidos

Nos tempos de frente até atrás,
Vamos pintar o real nos panos, papéis,
Telas, papelões, assobios e muito mais!
Vamos reescrever os sinais!

Fio que nos ata agora, direto do centro do mundo,

Apóia, movimenta, dispara à vontade!
Servimos de sede à dança fértil e contagiosa
Do Desejo de toda gente nossa!"

Meditadores aproveitadores de momentos

Ouvem esses silenciosos sons da natureza
Esquecimentos e esquentamentos
Em meio ao barulho natural
Do mundo difícil movido a gasolina.

Chegam aos espaços e giram e giram e giram

E criam as danças e crianças de paz e guerra
Na cidade brava que aos poucos cede da máscara
Da dor à monstruosidade da felicidade.

Contra Polícia, Direito e Estado,

Dança, Poesia e Coragem versam
E queimam os dragões de maldade.

Dos homens ao feminino,

Das mulheres ao infinito,
Do desejo ao abismo,
O corpo inteiro da orquestra do caos contra a ditadura
Busca os pontos de equilíbrio, desequilibra e costura.

(Guebo)

GRÃO

Sinto
Sinto (não pressinto)
Sinto

Fotossíntese
Equilíbrio
De pé n'areia
Em frente ao mar
Unido

Refresco
Das gotas da brisa
Acalento
Dos raios do sol
Acalanto
Das ondas do som
Do som das ondas
Que Yemanjá faz

Tudo é doce
Mesmo a cidade
Atrás de mim
Tudo é bem

O barco
De pesca
No cais
De descanso

Nada
Nada (me cobra nadar)
Nada

Sou cobra
De caminho
Sem direção
Como água
A circular

Sou siri
De andar
Lateral

De repente
A espuma
Me atinge

Fria e pura
Ela passa
Não resisto
Me altera

Finco meus
Pés na terra
Me enterro

Me cerco
De infinitos
Grãos

Sou terráqueo
Da sublime mãe

Grato sou
Grato sou
Nua beleza
Me integra.

(Guebo)